"Há várias formas de levar uma relação para a frente. O tempo vai dando indicações se de facto um entusiasmo inicial pode ou não levar a qualquer coisa mais consistente.
Mas nós passamos a vida a carregar pianos.Certas paixões de adolescência que deixam de ser de adolescência e passam a ser mais sentidas, mais bonitas histórias de amor, paixões impossíveis que nos tiram o sono e a vontade de comer, e escrever coisas muito lamechas.
Mas depois de uma pessoa cresce e habitua-se a sofrer. A esperar. A sonhar um bolo gigante a partir-se em três migalhas.
A acreditar no impossível, a desejar o impensável.
A querer que aqueles que amamos nos tragam o mundo numa bandeja. A isto chama-se carregar pianos, até ao dia em que uma pessoa se cansa, baixa os braços, olha para o piano, encolhe os braços e diz Basta!
Basta de esperar, de sonhos, de promessas de amor, de castelos de areia, de adiamentos, da solidão.
Sentimos-nos a desmanchar por dentro. Não é a partir é só a desmanchar, como se nada tivesse forma ou sentido. E o piano, está ali mesmo á frente, á espera de ser carregado. Dá vontade de o destruir, dá vontade de desabafar com ele e contar o que se passa.
Que o cansaço está acima do sonho, que o medo está acima da força, que a vontade comanda a vida, mas não o amor, porque o amor é uma coisa que nos é dada e temos de aproveita-la e não é a vontade que nos faz lutar, mas sim o facto de amar alguém.
Explicar que o tempo vai trazer ventos que nos indiquem o caminho.
Carregar pianos, escada acima, escada a baixo, as costas doem, os braços tremem, tudo é difícil, tudo é esforço. E o amor transforma-se numa luta , num sacrifício.
E o pior é que quando chegamos ao fim da batalha e o piano está lá em cima, não era aquela sala, nem aquela casa, nem era aquela pessoa.
Carregar pianos, para quê?
Se todos tem rodinhas.
Não é desistir, há sempre uma solução, basta querer."
Margarida Rebelo Pinto
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